Nov

19

Imanência e Transcendência

By admin

Ouvi dizer que: “Para que possamos herdar a eternidade, precisamos morrer fisicamente”.

Durante toda a existência histórico/racional da humanidade, fomos induzidos a pensar desta forma para que o tão temido fardo da morte se tornasse mais leve e até mesmo aceitável.

Nossas almas inquietas, ansiosas por saber mais e por experimentar formas cada vez mais sedutoras de liberdade começaram a perceber que existe algo além da simples eternidade.

Quando avançamos com nossas inteligências em direção aos mais profundos recônditos da natureza, nos valendo da ciência como ferramenta, nos deparamos com elementos no mínimo surpreendentes que nos tiram o chão e o fôlego, nos desvendando mistérios que durante muito tempo foram elaborados para nos manter em regime de “cárcere privado” dentro das celas escuras de nossos medos.

Presos incomunicáveis, cumprimos uma dolorosa pena que durante muito tempo nos foi imputada por termos cometido o crime gravíssimo de nascer. Somos condenados a envelhecer e morrer, prisioneiros de idéias escabrosas sobre pecados, arrependimentos e recompensas celestiais.

Todo aquele que se rebela contra esta ditadura de valores, é considerado herege ou ateu, julgado e condenado pela inquisição pálida de uma sociedade acostumada a jogar para “baixo do tapete” os seus desvios de conduta, e com o dedo em atitude de apontamento, indicar ao suposto pecador o caminho da danação eterna.

Céu eterno ou danação eterna são as únicas veredas possíveis no entendimento daqueles doutrinados para o pensamento menor a respeito de si mesmo. Eles desprezam a grandeza que Deus deu a eles como legado universal.

Existe algo enorme, autoritário e temível em algum lugar do universo, e nós estamos aqui para cumprir o papel de humildes servos, tementes a Ele embora alguém tente ao mesmo tempo nos convencer que fomos feitos “á sua imagem e semelhança”.

Como é possível viver do temor?

Por que não é possível viver com um raciocínio claro e um sentimento limpo com relação ao Governante do Universo?

 

Imanência

Estar fixo em uma posição é o mais torturante modo de existir para nós carnais. Nem mesmo um cadáver está parado. Sua decomposição o põe em movimento por que ele está sendo devolvido á natureza. Se observarmos com frieza e raciocínio puro, saberemos que o movimento sempre foi o sinônimo de vida. Fomos elementos químicos em contínua mutação, depois espermatozóides, depois células em louca e desenfreada luta contra o tempo para produzir um ser resistente, conseguimos vir á luz e iniciamos uma jornada sensorial para conhecer o mundo exterior.

Se não bastasse tanto sacrifício, aqueles que aqui chegaram antes de nós, criaram métodos de controle para que todos pudessem existir em harmonia, e finalmente cessassem o movimento. Existir de forma dependente, obediente a algo que não foi corretamente explicado e cuja única maneira de nos convencer a este jugo, é a maneira da recompensa e castigo.

O ser humano se torna imanente embora permaneça em constante movimento biológico e social. Aparentemente tudo está se movendo e progredindo, mas nossa angústia e depressão aumentam cada vez mais, gerando tanta confusão que começamos a padecer de sociopatias, de uma profunda tristeza que não sabemos de onde vem, de uma sensação de que nada tem mais sabor ou cor na vida e no mundo, e de que o tempo que passamos vivendo ate aquele momento, não nos deu nada que valesse a pena ter vivido. É neste momento que nos dão a religião como remédio, e se não tivermos a necessária visão correta do mundo e de nós mesmos, seremos cimentados em um balde, e com os pés pesados seremos atirados no mar dos dogmas, para morrer de forma cordeira e patética, e certos de que encontraremos a verdadeira vida.

Ser imanente ou paralisado é uma ilusão de que o tigre faminto vai passar por nós, e sem receber provocação irá embora. Nosso raciocínio e a dádiva de viver e aprender em sociedade, ferramenta magnífica que nos elevou da cadeia alimentar animal, para governantes supremos do planeta, este mesmo raciocínio pode ser a mais paralisante droga que um ser humano pode experimentar. Nossa verdadeira vocação ancestral e presente é a transcendência, bastando apenas conceituar corretamente o que vem a ser isto e que primeiro passo podemos dar em direção a ela.

 

Transcendência.

Ir além do medo.

Em nossa memória ancestral, herdada dos primeiros humanos, existe o medo de sermos exterminados. Conhecemos a dor e sabemos sobre o prazer. Não nos contentamos com as sensações neutras. Estamos constantemente fugindo da dor e buscando satisfação ou prazer. Somente os objetivos máximos de nossas vidas nos levam além da dor e do medo. É a vontade ferrenha que nos eleva além do raciocínio e nos faz realizar proezas além da simples coragem.

Todos temos medo, mas a não entrega é o que nos destaca  e nos faz fortes para transcender o medo e até mesmo usá-lo como embarcação para chegar aos portos seguros de nossos objetivos.

 

Ir além da dor.

Não existe analgésico para emoções aniquilantes como baixa estima, frustração, amargura, inveja e incompetência amorosa. A maior parte das nossas dores são causadas por paralisia e falta de objetivos a perseguir. Ás vezes temos os objetivos, mas são menores do que nós, e sabemos de forma subliminar que quando os alcançarmos eles não nos darão o suficiente.

Outras vezes, temos os objetivos, mas não temos a capacidade de foco. Começamos bem, mas no processo, nos desviamos ou não agregamos força e atenção suficientes para chegar ao final.

A dor da perda sempre é a mais severa das tempestades. Seu efeito cegante nos impede de reagir e raciocinar corretamente para achar a maneira de contornar e superar, já que na maioria das vezes, são as perdas irreparáveis que nos deixam sem olhos.

Mais uma vez é a vontade ferrenha que vem em nosso socorro. Nossa determinação em permanecer em movimento, o sentimento de estarmos vivos e conectados a forças maiores, limpar, construtivas e luminosas, nos dão um suprimento extra de ar, e é neste profundo gesto de respirar profundamente, e dar um primeiro passo á frente, que nos diferenciamos radicalmente daquele que senta, chora e se declara vencido pela vida.

 

Ir além do amor.

Amar é consumir. Começamos desejando consumir o outro fisicamente e terminamos desejando consumir sua existência. Queremos que aquele a quem amamos fique conosco e faça tudo por nós por toda a sua vida, assim é o amor.

Podemos amar á distância, mas isto será morrer um pouquinho a cada dia, porque existe um monstro chamado saudade que tentará nos matar e conseguirá. Muitos seres humanos fortes e magníficos morreram de saudade ao longo de nossa história.

O amor é a doença que todos nós queremos ter, e da qual nenhum de nós quer se curar. Mesmo sendo perigosa, jamais nos vacinaremos contra ela, porque sabemos como a vida pode ser melhor a partir do momento em que estivermos amando. Amar alguém para ter relações mentais, espirituais e carnais, amar aos filhos, aos pais, aos amigos, um animal, o trabalho, até mesmo um objeto de grande estimação. As formas são muitas e todas elas de certa forma aprisionam, e esta é a pior face do amor.

Gratidão é maneira de transcender o amor, e torná-lo a emoção mais libertária que existe. Quando conseguimos fundir amor e gratidão em um único elemento, descobrimos que a eternidade é justamente isto. O amor quando é apenas posse, se perde quando o objeto se vai, restando amargura, mágoa e todos os fantasmas possíveis e imagináveis.

O amor só atinge o status de eternidade quando sentimos gratidão pela oportunidade de experimentá-lo. Mesmo o amor/fé, só pode conduzir á eternidade se for agregado á gratidão. Devoção pura muitas vezes se torna revolta pura, bastando para isto que um pedido não seja atendido prontamente. A eternidade não é um local ou condição temporal, sinto que ela é sensação de duração de um valor. Enquanto minha consciência existir, seja nesta vida apenas ou em uma outra após a morte física (não sabemos), enquanto eu puder sentir-me grato pela oportunidade que tive de amar profundamente, terei a direta percepção de eternidade.

 

Ir além de Deus.

Somos um pêndulo oscilando entre imanência e transcendência.

Se pudermos resolver em nosso interior e em nossa vidas, estas questões e com isto garantirmos nossa eternidade, termos ido além do Deus que nos impuseram por toda a história e estaremos  prontos  para o confronto final com Ele, onde e quando descobriremos que realmente fomos feitos á sua imagem e semelhança, embora saibamos que nossas imagens são ilusórias, porque estão em constante mutação e não nos assemelhamos a nada, por que nada é estático no universo, portanto, Deus é uma impossibilidade para nossa percepção (tão limitada ) e é ao mesmo tempo, a única coisa (Deus) imanente (fixa e permanente) em toda existência.

 

 

Inetrnational master Tue Ho Anselmo

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