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O carvalho e o vaso de argila.

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Por Monge Tue Ho Anselmo Bezerra.

Durante muitos anos a menina Jade Verde trabalhou para manter a casa do mestre Pardal Dourado.

O pardal na china é considerado um animal extremamente importante porque traz dinâmica ao início do dia, e harmoniosa despedida ao seu final.

Enquanto trabalhava, a menina esperançosa de atingir alguma sabedoria, diariamente submetia ao mestre uma ou outra questão dos ensinamentos budistas.

Nesta época era vetado ás mulheres o aprendizado com os mestres imperiais. Eles deveriam ser mantidos em paz para que apenas nos momentos oportunos anunciassem suas percepções e conclusões.

Certo dia a menina atacou o mestre com a seguinte pergunta:

- Venerável Mestre, ouço atrás do biombo as suas conversas com os discípulos que também são mestres. Percebo que buscam a mesma coisa. Todos querem se Iluminar para que possam conduzir outros á margem da sabedoria.

- Você está certa, este é um ideal do “veículo antigo” ou o pensamento dos antigos , Hinayana.

- Penso que, enquanto esperam pelo supremo fruto de seus esforços, a Iluminação, eles poderiam auxiliar outras pessoas que estão no início da “Trilha”.

­ - Você está certa, este é o ideal do “veículo novo” ou o pensamento inovado , Mahayana.

Um profundo silêncio se instalou na sala. Os dois permaneceram quietos por alguns minutos até que a audição, incrivelmente treinada do mestre, captou o impacto de uma lágrima vertida pela menina que atingia a seda de suas vestes. O mestre nada fez, simplesmente se levantou e saiu percebendo que a compreensão dela estava amadurecendo a cada dia.

Os dias se passaram e a menina continuou sua labuta em atender ás necessidades da casa e observar com sua costumeira atenção o que acontecia naquele local sagrado.

Foi na primeira lua cheia outonal que o mestre decidiu realizar um pequeno festival. A casa foi enfeitada com bandeirolas, o altar budista foi montado no quintal, e pratos típicos vegetarianos foram preparados por muitas bondosas mulheres, orquestradas por um mestre cozinheiro.

Ao anoitecer, os convidados chegaram e as mulheres foram para sua clausura como era tradicional. Todos se sentaram ao redor do mestre e, para a surpresa de todos, foi organizado um círculo externo, onde as mulheres puderam se sentar para observar a festa.

Após as orações e toques tradicionais de sinos e tambor, o mestre fez uso da palavra, sempre de maneira firme, segura e inconteste.

- Irmãos, existe a Forma, da forma vem o pensamento, dele vem a percepção, dela vem a sensação, e deles vem a formação mental.

Lidamos em nossas vidas com nossa corporalidade: temos ar em nós, temos também líquidos, temos ainda minerais e energias não palpáveis, mas, de grande valor e importância.

Nossa forma abriga nossa capacidade de pensar, mas ela precisa ser alimentada com elementos específicos que contemplem nossa necessidade de relacionamento com os mundos interior e exterior. Assim temos as percepções que vem através dos sentidos. Percepções tácteis, olfativas, gustativas, visuais e auditivas.

As sensações são agradáveis, desagradáveis ou neutras.

Por exemplo: tudo que ouvimos pode ser agradável, desagradável ou neutro.O mesmo acontece com cada um dos sentidos.

Desta forma, se multiplicarmos seis sentidos por três sensações básicas teremos os dezoito elementos psicofísicos.

Todos estes elementos geram a formação mental.

Senhores, assim é formado o ser, assim é formada a mente, assim definimos cada porção do ser.

Um dos convidados, um importante homem do governo imperial, indagou:

- Mestre, sua explanação foi notável e agora finalmente compreendi os Skandhas (cinco agregados). Minha indagação é: Existe algum elemento que mantenha firme estes elementos? Pergunto isto porque percebo que se forem purificados e aperfeiçoados, poderemos atingir a “margem da sabedoria absoluta”.

O mestre esperou um instante e respondeu:

- Em nossas vidas sempre encontramos os nós que atam algo que precisa ser desatado, não é diferente com a busca espiritual.

O festival seguiu com orações, poesia, música e boa alimentação.

No dia seguinte a pequena menina estava exausta, mas feliz. Havia aprendido muito e era tão grande sua alegria que mal podia organizar seus pensamentos. Pela primeira vez ela se sentia relaxada e até mesmo ameaçava cantarolar uma música infantil.

E foi neste estado de profunda alegria ditosa que ela foi buscar água em um estanque próximo da casa do mestre. Com um pesado cântaro de argila cheio d’água nos braços, a frágil e feliz menina retornava para casa em passos harmoniosos com um leve sorriso no rosto.

Em certo trecho do caminho, os passos da menina falharam, o cântaro caiu de seus braços e, ao se despedaçar no chão, fez soltar o laço de couro que lhe dava resistência.

Neste momento a mente da pequena Jade se Iluminou, uma onda fantástica de beatitude a invadiu e, repentinamente, tudo aquilo que o mestre havia dito um dia antes parecia uma grande chave que servia para abrir a porta de uma extraordinária dimensão de sabedoria e êxtase.

A Iluminação.

“A ampliação da liberdade “.(TueHo Anselmo)

Sua liberdade física e mental se ampliou para o nível espiritual. Finalmente ela pôde estar em paz com seu presente, compreender o seu passado e vislumbrar um futuro pleno de entendimento e força.

Era o início de inverno e as primeiras neves começavam a chegar. As montanhas mais distantes já estavam vestidas de branco e o vento trazia os sons dos pássaros que começavam a se retirar da região, em um balé aéreo incrivelmente bonito.

Jade se despediu do mestre apenas com um leve sorriso e virou-se para partir. Ao atravessar o portal do templo cruzou com a menina que vinha substituí-la. Era uma chinesinha franzina de rostinho vermelho e jeito doce.

-Você é a nova ajudante?

- Sim – respondeu ela escondendo o olhar.

- Por favor, não sirva o mestre…ame-o como se ama a um pai amoroso, e prepare-se para a herança que ele vai te entregar.

Sem mais dizer, a pequena Jade seguiu viagem.

A casa de pedras da senhora Orquídea Preciosa estava muito bem cuidada, os campos já haviam sido colhidos e armazenados para o inverno, e da chaminé saía uma leve fumaça seguida por um delicioso cheirinho de comida. Os últimos metros até a casa foram conquistados com uma boa corrida, onde Jade demonstrou que não só havia aprendido as lições espirituais, mas também aquelas dos treinamentos em artes marciais.

Um salto por cima da cerca terminou a corrida e precipitou a menina porta a dentro.

- Senhora minha Mãe! O Mi To Fo! (salve o Sr Buddha)

-Minha linda filha, você se tornou uma mulher muito formosa.

Os abraços foram intermináveis, as lágrimas de emoção foram doces e bem vindas, e os momentos e relatos foram muito animados.

A rotina da casa foi voltando ao normal enquanto o inverno passava. Em um cômodo não ocupado da casa, a menina erigiu um altar budista e ali rezava todos os dias. Suas práticas de meditação Zazen rivalizavam com os afazeres domésticos, mas tudo fluía como o inverno que já dava sinais de partida após uma passagem calma pela bela região de árvores tão bonitas, algumas delas seculares.

As flores voltaram e com elas era possível fazer meditação do lado de fora da casa em postura sentada e em movimento, caminhando no bosque.

As pessoas na cidade começaram a comentar umas sobre as outras, isto era normal no fim do inverno quando todos saíam de casa para ver o mundo exterior.

O comentário mais forte da época era a volta da menina Jade. Todos sabiam que ela havia partido para completar sua educação em um monastério. Sabiam também que o monge chefe a quem ela iria servir, era um velho de uns noventa anos, muito exigente e rigoroso. Todos imaginavam que ela não suportaria o treinamento e a surpresa foi geral quando de seu retorno após cinco longos anos.

Além de seus modos e sua educação refinada, a menina Jade encantava também por sua beleza. Não tardou para que alguns ricos interessados enviassem propostas de casamento.

A fama de sua valorosa beleza se espalhou rapidamente e logo um grande desconforto se apoderou dela e de sua mãe. Como refúgio para os problemas que começavam a se avolumar, Jade meditava em frente a um grande carvalho. Permanecia horas completamente imóvel, sua respiração era mínima e sua energia era tão poderosa que nenhum inseto a importunava. Sua energia vital assim como sua espiritualidade cresceram no caminho do aprimoramento daquele primeiro estado de Iluminação obtido junto ao mestre.

O inverno já se aproximava outra vez e os preparativos para a reclusão forçada pela neve já haviam começado. Nesta época, era comum contratar pessoas para realizar a colheita. Cinco homens vindos das planícies do oeste chegaram á casa para pedir trabalho e foram aceitos.

Seus modos eram os de bárbaros das estepes, eram robustos, cabeludos, sujos e com um olhar cobiçoso. Não havia alternativa, todos na cidade estavam empregados em outras lavouras ou transportando mercadorias para outros centros. Apesar do perigo constante, a rotina continuou a mesma por muitos dias.

A lua cheia é muito importante para os budistas porque foi com a presença dela, em maio (Vesak), que o Sr Buddha se Iluminou.

O inverno em seu início permitiu aquela região uma belíssima lua cheia, que apesar de inesperada, trouxe muito júbilo a todos.

A prontidão foi imediata e logo se organizou um festival na cidade. Todos correram para a praça central e enfeitaram com lanternas, prepararam fogueira e mesas para a comida. Havia alegria em toda a parte. Era como a despedida e comemoração da boa colheita.

Todos estavam na cidade o dia inteiro, e todos lamentavam a falta da presença de Jade. Os empregados temporários confabulavam, reclamando do pagamento insuficiente e que deveriam levar algo mais da senhora Orquídea. Partiram para a casa pensando em roubar, mas quando entraram no grande quintal, se depararam com a mais bela e atraente visão; Jade estava meditando, tranquilamente, sentada á sombra de sua grande árvore. Rapidamente pensamentos e desejos demoníacos se apossaram dos cinco homens que se aproximaram ofegantes e o chefe fez o anúncio de sua intenção infame.

- Você será nossa, nosso pagamento. Sei que você pode me ouve, eu não acredito em meditação, nem em reza!

Ela permanecia imóvel e mal se podia perceber sua respiração.

- Você, você, levanta!

Todos iniciaram a gritar para que ela despertasse, mas era inútil.

Mais uma vez confabularam e decidiram levá-la para dentro e violentá-la.

Dois dos homens se aproximaram e segurando firme tentaram levantar a pequena Jade de seu assento de meditação. Tudo em vão, ela não se moveu.

Todos tentaram e falharam em movê-la. Seus braços franzinos já apresentavam marcas roxas e ela não se movia.

Loucos com o insucesso, os homens dilaceraram suas roupas, e quando estavam prestes a lhe tirar a última peça, ela finalmente falou.

- Sou pesada e inamovível como o carvalho, sou uma com ele e ele um comigo.

Neste instante ouviu-se o ruído de pessoas chegando, eram amigos que vinham saber por que a menina não estava na festa. Flagrados, os bandidos correram para a mata,imaginando que os que se aproximavam fossem espíritos protetores da menina.

Sua nudez foi protegida pelas mulheres que lhe envolveram em um manto e ela foi conduzida de volta á casa.

A festa foi mantida a pedido de Jade e de sua piedosa mãe. As duas ficaram em casa e uma guarda se revezava para impedir a volta dos bandidos.

O inverno passou, mas desta vez de maneira completamente diferente dos outros anos. A casa de Jade se transformou em um local de encontro onde, aos pés da pequena mestra ao lado do fogo confortável da lareira, muitos vinham meditar e estudar o Dharma (ensinamentos budistas).

Assim que o gelo se desfez e o Sol voltou a dar alegria de dias luminosos á região, uma notícia muito triste chegou até a cidade.

Os bandidos fugitivos, após a tentativa de agressão contra a menina Jade, tentaram roubar o monastério. Ameaçaram o velho monge e roubaram a única relíquia valiosa que era um elefante de bronze com olhos de rubi, que o chefe da província havia ofertado ao mosteiro.

Para sua punição, quando atravessavam as montanhas brancas de neve, não perceberam que estavam sobre um lago e que o gelo já estava fino devido á aproximação da primavera. O resultado foi que o peso dos cinco homens acrescido do peso do elefante, fez rachar o gelo e todos morreram congelados nas águas profundas do lago.

A vida continuou na bela cidade da Mágica Harmonia, na região montanhosa do norte, onde viveu por muitos anos a senhora Orquídea Preciosa e a jovem Jade Verde, verde como o carvalho. O carvalho que não tomba com o peso da neve, que dá sombra no verão, beleza na primavera e exemplo de perseverança no outono.

Ao envelhecer a menina Jade morreu calmamente, deixou muitos discípulos e uma história que vale a pena ser lembrada.

O Mi To Fo !

One Response so far

Muito emocionante e preciosa esta história, Mestre! Obrigado por compartilhá-la conosco.

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